Dimensões



            Deitou na cama com a pior dor que poderia sentir. Um peso se acumulava na sua boca. O peso das palavras que ele não disse. A dor era nos seus olhos, as lágrimas davam murros umas nas outras a fim de sair do seu cárcere. Com a mão ele as fazia voltar para dentro dos olhos, mas elas eram mais fortes; sempre foram mais fortes.
            Arrumou coragem para levantar. Porém, as pernas disseram que não e ele caiu ao lado da cama. As lágrimas gritando em glória por terem escapado. Os olhos dele agora estavam anestesiados. Depois de tanto apanhar delas, eles apenas davam passagem e pediam para que não produzissem mais dor alguma. Elas não ligaram, continuou a doer.
            Sua cabeça correu colina a baixo na rua onde as casas são tortas. Tentou olhar pelas janelas, mas não viu coisa alguma lá dentro. As árvores eram pretas e o céu cinza; as casas eram brancas. Sua cabeça começou a ir mais longe, em um campo de mato seco que havia mais adiante. O que encontrou ali o fez chorar. Deitada no chão estava ela, um sorriso saia de sua boca que nunca mais iria se mexer. Seu cabelo branco igual às casas que ele havia visto estava em cima do mato seco. Ela vestia um vestido azul claro que não tinha nada a ver com aquele lugar. Ele chorou.
            Não podia fazer nada, então voltou ladeira a cima na rua das casas tortas. O silêncio tomava conta de todo o ar e as árvores não se movimentavam, pois não havia folhas. Os galhos negros pareciam espinhas de peixes quebradas. Tentou dar à volta através de uma esquina que continha uma placa pintada a mão que tinha duas palavras escritas em amarelo: Eu entendo.
            Entrou nessa rua procurando saber se ela realmente entendia, mas não apareceu ninguém para explicar algo a ele. As casas dessa rua eram mais feias do que a anterior. Tudo era de um verde musgo descascado com poeira se prendendo às paredes, pois a rua era de barro. Gritou, mas só houve eco. Ouviu, mas não houve nada. Correu, mas só houve poeira. Chorou, só houve lágrimas.
            Olhou para as mãos e elas estavam sujas de barro. Olhou para os braços, eles também estavam. Foi andando até uma casa e se viu em um espelho que estava em pé em frente à varanda refletindo o outro lado da rua. Se viu amarelo e com lama saindo da cabeça. Passou a mão nela. Sentiu a molhada sensação. Tentou limpar na roupa, mas ela já estava melada.
            Voltou correndo pelo local que tinha ido, dobrou a esquina na rua torta e saiu correndo enquanto os moradores fantasmas o olhavam e riam de sua situação tão imunda. Ele viu uma porta mais a frente e pulou por ela. Levantou-se do chão ao lado de sua cama. Pegou uma toalha no guarda-roupa e entrou no banheiro para tomar um banho quente.

Gabriel Rodrigues

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