A menina do laço lilás
Na primeira vez que eu a vi ela estava sentada no ponto
de ônibus. Estava segurando alguns livros no colo e olhava distraidamente para
os lados tentando ver se o ônibus já estava a caminho. Por um momento eu fiquei
parado do outro lado da rua, tentando acreditar que aquilo estava realmente
acontecendo. Havia algumas pessoas ao seu lado e de vez em quando ficavam
bloqueando a minha visão dela sentada ali no banco vermelho.
Tentei atravessar a rua, mas o trânsito estava muito
intenso. Eu tinha que esperar o sinal fechar para os carros e abrir para os
pedestres. Porém, um ônibus branco com listras amarelas e azuis dos lados
apareceu e bloqueou a minha visão de tudo no ponto de ônibus onde ela estava.
Quando ele foi embora, só restavam algumas pessoas. A mulher não estava entre
elas.
Algo dentro de mim se revirou e quase comecei a chorar
ali em pé. Enfim cheguei em casa. Eram cinco e meia da tarde e eu tinha acabado
de chegar do trabalho. Era uma casa alugada, mas mesmo assim era um lugar que
eu podia chamar de lar enquanto eu juntava dinheiro para dar entrada na minha.
Fui tomar banho ainda com o pensamento dela me rodeando a mente. Não poderia ser
ela. Dizem que a gente não pode criar pessoas em nossos sonhos, sendo assim já
as havíamos visto antes. Mas, eu juro, nunca a tinha visto antes, a não ser em
meus sonhos.
Quando eu era pequeno, eu sonhava com uma menina de
vestido rosa e um laço lilás no cabelo. Ela tinha cabelo o preto feito o céu
noturno e o seu sorriso era branco como a neve, e mesmo os seus dentes um pouco
tortos que deixavam uma pequena fresta eram lindos. Com o passar dos anos eu
continuei a sonhar com aquela menina, mas à medida que eu ia crescendo, ela
crescia junto. Eu falava a minha mãe o que estava acontecendo e ela dizia que
era normal, mesmo não sabendo se aquilo era normal. Não tínhamos dinheiro para
eu ir a um psicólogo perguntar alguma coisa sobre aquilo, então eu pesquisava
na internet com o meu celular. A resposta que eu recebia era que não poderíamos
criar rostos de pessoas sem antes a termos vistos. Aquilo só me deixava com
mais medo.
Então, depois desses anos, dou de cara com ela enquanto
eu voltava do trabalho e ela esperava um ônibus. Tão simples e normal que
parecia inevitável que iríamos nos encontrar. Do mesmo modo que o rio tem
certeza que vai desaguar no mar mesmo estando a quilômetros de distância dele.
Minha cabeça ainda ficava dizendo que tinha sido uma visão e que ela não estava
ali. Deve ter sido por causa do cansaço do trabalho. Me agarrei um pouco a essa
ideia para não criar expectativas. O melhor jeito de
sofrer é criar expectativas, ainda mais por alguém que nem existe.
Passei a noite assistindo um filme de ação e de vez em
quando alguns pensamentos perdidos sobre ela me vinham à mente. Fui dormir
próximo às doze da noite, no outro dia teria que ir trabalhar às oito e meia.
Mais uma vez sonhei com ela, dessa vez estávamos em um trilho de trem tentando
se equilibrar por cima de cada barra de ferro que o formava, mas sem nenhuma conquista.
Desequilibrávamos e começávamos a rir um para o outro. Acordei com o
despertador dizendo que eram sete e quarenta e cinco da manhã.
O dia no trabalho passou rápido. Quase não pensei nela. A
parte administrativa de uma empresa faz você esquecer do mundo lá fora e focar
apenas naquilo ali a sua frente e pronto. Ao sair da empresa eu ia meio nervoso
imaginando se a veria lá no ponto de ônibus mais uma vez. Falei que não, não
crie expectativa. No fim, ela já tinha se criado.
O céu estava azul alaranjado devido ao sol se pondo. As
nuvens dispostas sobre o céu como se tivessem sido jogadas ali sem cuidado
algum pareciam leite coalhado. Cheguei ao semáforo às cinco horas e cinco
minutos, quase como no dia anterior. Olhei para o ponto de ônibus, mas ela não
estava lá. Uma parte de mim esperava aquilo, a outra parte se desesperou.
O sinal ficou aberto para os pedestres, mas eu não me
movi junto com as outras pessoas que passaram ao meu lado. Fiquei parado
olhando para o ponto de ônibus até que o sinal ficou vermelho para os pedestres
e os carros correram livres. Um carro vermelho freou com uma brecada para não
bater em outro carro azul que mudou de faixa sem avisar. Aquilo me chamou a
atenção por alguns segundos enquanto os motoristas se xingavam e depois
continuaram a andar.
Ao voltar a vista para o semáforo ela foi puxada mais
para baixo. Sentada, com livros no colo, estava a garota dos meus sonhos.
Literalmente. Uma fita lilás estava no seu cabelo, o que a deixava ainda mais idêntica
à menina que eu sonhava quando era criança. Por um momento travei no chão.
Olhei para o sinal e ele estava vermelho. Mais adiante um ônibus vinha em
direção ao ponto. Ele tinha listras amarelas e azuis dos lados. Meu coração
bateu mais rápido e eu tentava acelerar o tempo do semáforo com a mente afim de
que ele ficasse logo verde para mim. O ônibus se aproximava e nada do sinal
abrir para os pedestres. Olhei para a menina sentada no ponto de ônibus. A
garota que eu havia sonhado durante tantos anos.
Saí correndo atravessando a pista. Os carros freando bruscamente
e quase me atropelando. Atrás de mim eu ouvia gritos e xingamentos. Não liguei,
eu tinha que alcançá-la. O ônibus estacionou no ponto e eu o contornei. Ela não
estava mais sentada no banco, deveria ter embarcado. Não pensei duas vezes.
Entrei no ônibus também e comecei a vasculhar os bancos. Lá na frente, quase
próxima ao motorista, ela estava sentada. O banco ao lado dela estava vazio. Agradeci
em silêncio e fui até ela com o coração na garganta. Demorei um tempo em pé ao
seu lado sem ela perceber e depois me sentei no espaço vazio ao seu lado.
Senti seu olhar e então olhei para ela. Eu não sabia o que
falar, não tinha planejado nada disso. Seria loucura, não? Planejar uma conversa
com alguém que nem existe? Fui abrir a boca e ela também abriu. Paramos de
tentar dizer o que for que iríamos falar. Corei um pouco, e ela também.
- Eu te conheço de algum lugar... – disse ela olhando o
meu rosto. – Meu Deus, não é possível.
- Sonho com você desde os sete anos – disse eu, sem medir
esforços ou palavras e não me importando para o que ela disse. Ela deveria
achar que eu era um maluco.
Ela abriu um pouco a boca e desse jeito ficou por uns 15
segundos. O ônibus começou a se movimentar e logo estávamos em um movimento
constante. A garota que eu sonhava desde os sete anos piscou os olhos durante alguns
momentos e então disse:
- Eu também.
Gabriel Rodrigues
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