Te vejo mais tarde - Gabriel Rodrigues
-
Saia daqui! – A mulher rosnou quando o mendigo pediu mais uma vez por um pouco
de comida.
Desde
que me sentei na cadeira e pedi o meu x-burguer, o mendigo já rodeava ali por
fora. Ele não estava sujo, apenas suas roupas estavam gastas. Ele tinha um ar
meio educado, mas dava para ver por suas feições que ele estava passando fome,
e quando alguma pessoa está com fome, ela só pensa em comer.
Ele
estava saindo quando eu ouvi minha voz o chamar. Ele olhou para mim um pouco
desconfiado, mas logo veio em minha direção. Sua barba estava por fazer e suas
sobrancelhas eram grossas.
-
Pode sentar aqui – falei, apontando para a cadeira do outro lado da mesa onde
eu estava.
O
sol lá fora estava forte, e um raio dele incidiu sobre os olhos do homem que,
por um instante, pareceram brilhar. Ele se sentou e ficou encolhido.
-
Quer comer o que?
Nesse
instante a mulher que pediu para ele ir embora estava olhado com uma cara de
repúdio para o nosso lado, mas eu não liguei. Eu que deveria estar olhando
assim para ela.
-
Qualquer coisa – ele disse em uma voz baixa.
Pedi
para que a atendente fizesse para ele o mesmo que eu havia pedido para mim. Quando os X-burgers e o suco chegaram, nós
comemos em silêncio. O único som que vinha era o dos carros na pista ou o que
vinha da TV que estava ligada em um canal de notícias. O homem sentado a minha
frente comia com educação, ele dava pequenas mordidas no sanduíche e mastigava
muito antes de engolir. De vez em quando ele me olhava, mas logo abaixava a
cabeça.
Acabei
de comer e já era hora de voltar para o trabalho, numa loja de roupas
masculinas. Me levantei e fui até o balcão para pagar a conta. Quando voltei
passei pela mesa e dei um tapinha no ombro dele.
-
Amanhã estarei aqui. Se estiver com fome pode vir essa mesma hora – o homem me
olhou sem compreender, mas logo balançou a cabeça positivamente.
Fui
para a loja. Eu vivia a base de comissões, mas estava cada vez mais difícil
bater a meta. Em casa eu tinha uma filha pequena para alimentar e a minha
mulher estava desempregada. A situação não estava boa, mas eu tinha esperança
de que poderia melhorar. A esperança é a única coisa que resta para quem está
ficando sem nada.
As
vendas na loja estavam ficando cada vez mais escassas e estava ameaçando até
mesmo o fechamento dela.
-
Vamos fazer de tudo para isso não acontecer, mas existe a possibilidade de
acontecer – disse um dia Camila, que era a gerente.
Só
me restava esperar para que isso não acontecesse, pois um homem com 40 anos que
trabalhou apenas na área de vendas não conseguiria um emprego tão cedo, ainda
mais na crise em que o mercado se encontrava. E esse dia não foi diferente dos
demais, apenas vendi três camisas sociais que deram um total de 300 reais.
Fui
para casa por volta das sete horas da noite. Minha esposa estava com minha
filha nos braços, fui até elas e dei um beijo em cada uma. Se havia algo que me
fazia seguir, esse algo eram elas.
-
Como foi no trabalho? – Ela perguntou enquanto jantávamos. Minha bebezinha
estava dormindo no berço que ficava no nosso quarto.
Os
olhos da minha esposa eram de um verde bem claro, eu sempre dizia a ela que eu havia
sido hipnotizado por eles. Ela dizia que eu havia sido hipnotizado por ela
toda.
-
Como os outros dias – falei, e ela me deu um olhar compreensivo.
-
Só espero que não atrasemos o aluguel mais uma vez – falou.
Peguei
na mão dela e a apertei.
-
Não vamos - falei, e ela sorriu.
No
outro dia quando cheguei à lanchonete, o homem estava lá. Com a mesma roupa do
outro dia, mas os cabelos pareciam que tinha sido penteados.
Estávamos
comendo quando o perguntei:
-
Por que está na rua? Quero dizer, você parece ter uma certa instrução.
Ele
olhou para o sanduíche e o deixou cair no prato. Ficou ali parado um pouco, mas
logo falou:
-
Briguei com os meus pais.
-
Faz quanto tempo? – perguntei.
-
Seis meses – ele falou baixinho.
-
Ainda dá tempo – respondi.
Ele
me olhou confuso.
-
Tempo de que?
Olhei
para ele e limpei minha boca com o guardanapo.
-
Tempo de voltar para casa.
Ele
balançou a cabeça negativamente e voltou a comer o sanduíche. Eu tomei um gole
de suco.
-
Por que não?
Ele
falou enquanto olhava para os dedos.
-
Eu os envergonhei.
-
Você pode fazer as coisas diferentes. O que você fez não importa agora, apenas
faça algo melhor.
Ele
pensou um pouco e suspirou.
-
Não posso...
-
Você pode.
Seu
rosto ficou manchado por dor, e percebi que ele estava evitando chorar.
-
Eu sou drogado...
-
Mas você pode não ser, se você se esforçar para não ser. Eu tenho certeza que
eles vão ficar muito felizes em te ajudar. Eu tenho certeza que eles estão
sentindo a sua falta.
A
lanchonete ficava no meio de uma praça no centro da cidade, a parte que nós
estávamos ficava na parte de fora dela, onde havia algumas mesas com cadeiras.
Olhei para a rua que estava cheia de automóveis.
-
Eles já vieram atrás de mim algumas vezes, mas eu, ou me escondia, ou fugia
deles – o homem me disse.
-
Então não fuja mais, se deixe ser ajudado. Não queira viver assim pelo resto da
vida – ele ficou pensando enquanto olhava para o seu sanduíche quase acabado. –
Quantos anos você tem?
Ele
piscou os olhos.
-
Dezenove – disse.
Aquilo
não me surpreendeu, as drogas deixam o usuário aparentar ser mais velho do que
é.
O
rapaz se levantou e olhou para mim, quando sol incidiu no seu rosto, dessa vez
foi uma lágrima que brilhou.
-
Qual o seu nome? – Ele perguntou.
-
João – respondi.
Ele
apertou as mãos e me disse duas palavras que eu nunca iria esquecer.
-
Obrigado, João – e foi embora.
Voltei
ao trabalho e não consegui tirar a imagem do rapaz da minha cabeça. Dezenove anos. O movimento na loja foi
melhor do que o do dia anterior, mas não foi nada de mais. A situação ainda era
ruim. Quando deu as sete horas da noite fui para casa e jantei com a minha
esposa. Minha filhinha ainda estava acordada, então brinquei um pouco com ela.
Às dez da noite fui dormir.
Trabalhei
toda a manhã, ou pelo menos quer dizer que eu estava no trabalho, pois não
apareceu nenhum cliente. Ao meio dia fui “almoçar” na lanchonete. Cheguei na
frente dela, não havia nenhum sinal do rapaz, e isso me fez sorrir. Não pude
conter o meu sorriso. Eu passei o resto do dia sorrindo. Meus colegas de
trabalho ficavam me perguntando qual a graça que eu estava achando, mas aquilo
me fazia sorrir ainda mais. Porém isso durou apenas um mês.
Quatro
semanas depois a gerente da loja me chamou e começou a falar sobre fazer cortes
na loja, a partir daí eu já sabia que seria demitido. E foi o que aconteceu.
Por algum motivo eu já sabia que aquilo poderia acontecer, e realmente
aconteceu. Parte de mim estava enlouquecendo, mas outra parte estava tentando
se acalmar e falar que ainda teria o seguro por 4 meses e que nesse meio tempo
poderia procurar um emprego. Eu me apeguei a essa parte.
Cheguei
em casa e contei a minha esposa o que aconteceu. Ela tentou me consolar e disse
que tudo iria dar certo. Eu a abracei e depois de um tempo fomos jantar. Antes
de ir dormir fui até a minha filhinha que estava deitada no berço e dei um
beijo no rosto dela. Seus pezinhos eram tão pequenos...
Os
dias foram se passando e eu não conseguia arrumar um emprego, as coisas estavam
ficando difíceis. Então, no último mês que eu iria receber o seguro desemprego,
eu fui até a lanchonete, onde eu almoçava antes, depois de pôr alguns
currículos em umas lojas, para tomar um suco. Eu aguardei o suco sentado à mesa
no lado de fora da lanchonete.
Eu
apenas pensava na minha bebê. Se eu não conseguisse o emprego... Eu não gostava
nem de pensar nisso.
Eu
tinha que conseguir.
A
atendente me trouxe o suco e, depois que eu comecei a tomar, apareceu um homem
vestido com uma camisa social e um blazer por cima dela. Seus sapatos sociais
eram pretos igual ao blazer. Parecia ser um daqueles advogados. Sua barba e
cabelo bem feitos. Ele ficou parado olhando para mim e então sentou-se na
cadeira do outro lado da mesa.
Achei
isso estranho, mas não falei nada. Apenas continuei tomando o suco.
O
homem por fim falou.
-
Oi, João – seu sorriso estava espalhado ao longo do seu rosto.
Eu
fiquei me perguntando como aquele homem sabia o meu nome, ele me era familiar,
mas não o reconhecia.
-
Oi – respondi cismado. – Como sabe o meu nome?
Ele me olhou com os
olhos brilhando por causa de um raio de sol que se incidiu sobre eles. Ele
respondeu, mas eu já sabia como ele sabia.
-
Você me comprou alguns sanduíches.
Eu
olhei para ele com a boca aberta. Eu sabia que estava aberta, mas não fiz
esforço para fechá-la. Voltei a mim e sorri a ele com alegria. Aquele homem não
era o mesmo que estava pedindo comida, ele mudou. Ele mudou!
-
Você fez as coisas diferentes – eu disse.
Ele
se levantou e veio me abraçar. Eu não tive tempo de me levantar também, então
ele se curvou e me abraçou com eu ainda sentado. Ele estava soluçando, logo eu
também comecei a soluçar.
-
Você me salvou – ele disse. – Você me salvou.
Ele
recuou e então eu me levantei também.
-
Você está bonito – falei, enquanto tirava algumas lágrimas dos meus olhos.
Ele
sorriu mais uma vez.
-
Você acha? – e então abriu os abraços.
-
Sim – respondi, eu estava alegre por ele.
Ele
então me contou tudo o que aconteceu, com a gente ali em pé. Ele voltou para a
casa dos pais e pediu ajuda. Eles o levaram para uma clínica, onde ele ainda
está indo. Como ele progrediu logo, eles o liberaram durante dois dias.
-
Eu vim aqui ontem, mas você não estava – ele disse.
-
Aconteceu algumas coisas – respondi. – Fui demitido.
Ele
me olhou com um ar de tristeza.
-
Trabalhe para mim – falou.
Fiquei
sem entender.
-
Trabalhar para você?
Ele
me deu um olhar solidário.
-
O meu pai é dono de uma concessionária de carros, e eu também – ele começou. –
Você trabalha com o que?
-
Vendas – falei, ainda processando aquilo.
-
Melhor ainda. Vou te passar o endereço para você ir até lá.
Ele
pediu uma caneta a atendente e anotou o endereço no guardanapo. Quando terminou
me entregou.
Eu
fiquei olhando para o papel e lágrimas fizeram as minha bochechas arderem, tudo ficou
embaçado. Olhei para ele através delas.
-
Por que está fazendo isso por mim? – perguntei, soluçando.
O
rapaz de brilho nos olhos passou a mão neles.
-
Os sanduíches estavam bons – disse. – Obrigado, João.
Gabriel Rodrigues
Comentários
Postar um comentário