Poesia - Junção de pensamentos
Primeiro vi. Depois senti.
Depois ouvi. Mentira, não foi desse jeito. Primeiro eu vi, depois eu vi de novo
e depois de novo. Depois ouvi, e ouvi e ouvi.
Depois eu vi e ouvi e senti. Senti muito. Senti tanta coisa, não precisam ser
descritas. Descrever apenas torna menor o que vai ser descrito. Apenas saiba
que eu vi-senti-e-ouvi, tudo junto desse jeito. Mas isso apenas no final. No
começo eu apenas vi, vi andando. Depois eu vi mais uma vez, mas estava
conversando. Depois eu vi sorrindo e gritando, talvez até abraçando. Vi rodeada
de gente, e vi rodeada de nada. Todas as vezes era você, do mesmo modo. Tinha
um sorriso no rosto, depois era apenas um rosto sério, posso jurar que um
sorriso estava por ali querendo aparecer. Tentei o chamar para sair, mas desisti
no meio do caminho. Ele poderia estar protegido por algo mais forte que eu. Por
um grito ou insulto. Não sei.
Eu estava atrás de outros
sorrisos, mas depois o seu me achou (sempre me achava). Olhei para ele, não sei
se olhei. Mas o vi. E ele me viu. E eu quis ir até ele. Mas eu não fui. Por que
não fui? Não sei.
Não sei.
São muitos “não sei”.
Mas o que sabemos. Não foi
uma pergunta, apenas uma afirmação. Se é que se pode afirmar quando não se sabe
nada. Eu não fui, nem ele me veio. Apenas ficamos ali, olhando um para o outro
de longe. Seus braços não estavam em volta de mim. Nem os meus estavam em volta
de você. A música tocava, e eu não
falava, nem me ajudava. Apenas observava. Eu ouvi também, ouvi a música. Ouvi a
dança. Seu sorriso dançou. Sim. Eu vi. Ele dança tão bem, seu sorriso. O meu
quis ir até o seu, mas o contive. O grito poderia não deixar, ou talvez o
insulto. Não sei.
Estava andando, eu também
estava. O sol gritava lá de cima, mas não insultava, apenas gargalhava. Eu
olhei para ele, mas não pude o fitar. Meus olhos doeram, mas foi bom o
encontrar ali em cima gargalhando para você e para mim. Eu sorri com isso. Não
sei por quê.
O vento chegou e fez seu
cabelo flutuar. O mesmo vento veio até mim, e eu senti. Senti muito.
O ar.
O cheiro.
Os passos.
Você.
O mesmo vento ficou indo e
vindo. E, do mesmo modo, você ia e vinha com ele.
Ia e vinha.
Ia e vinha.
Comecei a ficar tonto, mas
você seguia bem. O cheiro foi sumindo, assim como você se foi. Tive que me
conter para não te olhar de novo. Dessa vez não consegui, e te olhei. Esperei
algum grito.
Silêncio.
Silêncio.
Silêncio.
Olhar.
Eu olhei e fui olhado. Isso
foi estranho, mas foi o que aconteceu.
Nossos sons então se
encontraram, e eles se deram bem. Foi uma sinfonia e tanto, as notas se encontrando,
se abraçando e se beijando. Sua luz olhou a minha, e a minha já estava olhando
a sua. Isso fez com que meu toque te tocasse, e o seu me tocou também. Então
éramos luz e notas, toques também éramos, meu bem. Tudo ficou unido, não tinha
como separar, meu som beijou tua luz, teu toque as minhas notas. Seus olhos
beijaram minha pele, e tua voz beijou meus olhos.
Depois de tudo isso foi
difícil de separar. Onde estão minhas notas? Onde está o teu olhar?
Pego minha voz do teu ombro,
e você seus olhos do meu cheiro. O meu cheiro estava escondido, nem quis
aparecer, apenas fugiu com o seu beijo carregando o seu olhar. Seu cheiro nós
não encontramos, mas depois de um tempo sem se ver, eu te digo agora. Ele está
comigo, indo para todo lugar. À igreja, à praça e até para a escola. Mas ele
sempre quer te encontrar, o seu cheiro. Mas, desculpe, não vou te devolver. Se
eu for até você, tudo de novo vai se juntar, mas a parte mais difícil vai ser a
de tirar todos um do outro. E mais uma vez, isso, não posso encarar. Se separar
de tudo. Desculpa. Não dá.
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