Conto - O Correr do Tempo, de Gabriel Rodrigues




O despertador toca. Eu apenas fico olhando para o teto branco acima de mim. Depois de um tempo sou obrigada a me mexer e seguir o rumo da minha vida, ou apenas seguir o rumo que todos seguem mesmo sem saber qual é. Como se houvesse uma mão invisível que nos empurra para o mesmo local. Não, esse local não é a morte. Esse local é o saber de que você não pode fazer nada, de que você não sabe de nada, e de que você jamais saberá. Todos temem esse lugar. Todos vão para esse lugar.

Enquanto visto a roupa olho pela janela. A velha janela que começa a enferrujar, do mesmo modo que começo a enferrujar. Há uma aranha tecendo a sua teia no canto superior direito da janela. Não vou matá-la. Por que matá-la? Ela não fez nada. Quando percebo, já a matei. As coisas acontecem assim, entre o porquê e a consequência dele. No meio dessas duas palavras acontece o tudo mais. Acabo de me vestir e vou tomar café. Meu celular está na mão direita e a xícara com café está na mão esquerda. O pão está na minha boca. Não sei o que olho, apenas vejo, reajo e compartilho. O porquê disso? Já disse. 

Enquanto caminho até a porta, recebo uma mensagem. Olho e é apenas alguém. Alguém que precisa de um outro alguém, nesse caso eu. Envio algo de um modo que atenda suas expectativas, mesmo não atendendo as minhas. Mas não faço isso por ele, e sim por mim, pois assim ele atenderá as minhas mais tarde. Tudo se resume a trocas. O deixo bem para que eu fique bem. Nada a mais, nada a menos. Tudo é tudo e isso basta. A felicidade dos outros se reflete na nossa. Deixe-os felizes e você também ficará feliz. A individualidade é a dádiva, mas temos que quebrar um pouco disso para fazer alguém feliz, mesmo fazendo isso para que fiquemos felizes. Continua individual, mas desse modo é mais sutil.

Os carros morrem aos montes em frente do sinal vermelho, e eu sou obrigada a passar. Ao meu lado uma multidão se arrasta para os seus afazeres diários. Muitos deles irão fazer isso até morrer, e o único legado que deixarão será a vaga de emprego para outra pessoa ocupar. Porém, o máximo que alguém pode fazer é fazer algo. Se alguém trabalha como vendedor e outro como um matemático, no fim vão acabar no mesmo local (o que eu citei mais acima), logo nos resta perguntar se tanto esforço é realmente válido. Se ser é ser notado, todos somos. De outro modo não estaríamos ocupando a vaga de vendedor ou posto de matemático. 

Passo o dia inteiro no trabalho, apenas arquivando documentos. Indo e vindo, do mesmo modo que um pêndulo faz. Tudo horrivelmente chato. Mas quando que não está? Olho ao lado e vejo apenas papéis e mais papéis. Olho ao redor e vejo colegas de trabalho no seu mundo, todos encaminhando para o mesmo destino onde a mão invisível os leva (e também me leva). Sinto-me sem ser notada, mesmo sabendo que estou sendo notada. Então vou ao banheiro, onde fazemos as nossas necessidades, e faço a minha: pego o telefone e mando uma mensagem para ele. O verei hoje à noite.

Gabriel Rodrigues 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AHS: Novo trailer da 8ª temporada mostra tudo o que vem por aí!

Brasil: um país sem presente, futuro e agora... sem passado!

Resenha - Brotheragem, de Bruno Jovovich