Culto ao Aljar

Foi numa das tardes mais cinzentas de agosto que Eliot recebeu convite para culto tão singular. Ele provavelmente estava no jardim da frente de sua casa, varrendo a grama, quando foi abordado por um vizinho. É de certo que Eliot aceitou o convite apenas por educação e por sua dificuldade de dizer não aos outros, já que sempre se sentia ansioso perante a eventos com tanto convívio social.
Pensava ele que seria apenas mais uma vertente antiga do protestantismo, assim nada havia de tão curioso ou singular. Mas estava enganado, o vizinho explicara-lhe que era, na verdade, uma autêntica religião ancestral, com deuses próprios e tudo de mais.
Tal afirmação foi o bastante para que houvesse uma confirmação da presença de Eliot na reunião, e o vizinho mostrou-se feliz por demais com tal fato.
Eliot, por sua vez, passaria o resto do dia com estranha ansiedade, qual contrastaria com sua imensa vontade de participar em tal evento.
E o encontro foi marcado para sete da noite, numa casa que, curiosamente, ficava próxima ao cemitério. Segundo o vizinho, o evento era um culto especial de uma curiosa religião que com certeza Eliot iria converte-se para ela, tamanha era a grandiosidade de sua beleza. Eliot, como um bom estudante de religiões antigas e ocultismo, se interessou rapidamente pela ideia e aceitou o convite sem pestanejar.
Às sete da noite, como combinado, o vizinho foi buscar Eliot em sua residência. Eliot se assustou com a negritude de suas vestes, que iam de peça a peça, mas não reclamou, com medo de perder experiência tão curiosa.
Seguindo pela rua principal, os dois chegaram ao cemitério, onde passaram direto para a casa marcada. Entrando lá, Eliot foi de súbito acometido por repugnante odor de velas aromáticas em excesso, o que o fez torcer o nariz para a reunião, mas ainda não foi o suficiente para fazê-lo reclamar, tamanha era sua curiosidade acerca de culto tão singular.
A reunião começou de forma discreta. Com uma moça de aparentável bom dote enviando pequenos pedaços de papéis com hieróglifos inteligíveis para Eliot, qual serviram para atiçar ainda mais a curiosidade do mesmo. A moça fez o mesmo com todos os outros vinte participantes, quais levantavam os papéis nas alturas dos olhos e percorriam os hieróglifos com o olhar e notável interesse.
Após vinte minutos de estranha leitura, por parte de quase todos, uma ciranda foi feita. Seguida do olhar atento de Eliot, a moça qual falamos anteriormente andou para o centro do semicírculo, onde deu um grito histérico. Eliot, claramente se assustou, e registrou tal evento em suas anotações sobre cultos antigos e singulares.
O resto das primeiras anotações falam sobre a feições claras de alguém que acaba de perder sua sanidade, qual foram adotadas pelo rosto da moça. Eliot ainda não deixou passar despercido as vestes de todos no local. Um tom escuro que chegava a ser angustiante dominava as vestes de quase todos os presentes na sala, menos Eliot, que acabou por sentir-se um pouco envergonhado por tal condição em que se encontrava.
Ao seguir do grito, todos os participantes silenciaram-se, e assim seguiu-se por vários minutos. No centro do semicírculo, a moça continuava em uma dança frenética e sem sentido, qual se estendeu por muito tempo. A dança da moça que continuava chamando a atenção de Eliot era basicamente composta por movimentos rápidos e frenéticos de braços e pernas, qual contrastavam com a movimentação leve e graciosa de cabeça e pescoço. Para Eliot, os braços da moça, de quando em vez estendidos ao longo do corpo, lembravam o movimento de uma cobra a preparar-se para atacar sua presa.
Ao final de estranha dança, todos os presentes aplaudiram tão singular apresentação, além de outros gritos histéricos aqui e ali. Eliot, a essa altura, estava obviamente assustado, mas ainda curioso acerca de tal culto.
Foi impossível não perceber a agitação de alguns convidados. Certas pessoas, quais Eliot reconheceu como seus bons e velhos vizinhos de longa data, riam e gritavam de modo assustador, enquanto comentavam entre sussurros coisas incompressíveis e que fariam a espinha de qualquer um gelar.
A seguir, um bom vinho foi servido a todos, qual quebrou inestimável suspense no lugar. Eliot, agora mais calmo e já alto por causa do vinho servido, passou a prestar mais atenção nos passos da moça de trejeitos graciosos.
A moça seguia pelo salão, cantando e falando palavras desconexas, enquanto dançava em estranha ciranda. Seu vestido era de um negro puro e fazia contraste com sua pele branquíssima, qual Eliot achou bela por demais.
Encantando pela beleza da mesma. Eliot a seguiu pelo salão. A mesma percebeu isso, e logo em seguida se ajoelhou e, para o horror de Eliot, começou a praguejar palavras inteligíveis. Apenas poucas palavras sobreviveram a memória de Eliot, como "luz", "Aljar", entre outras.
As palavras desconexas praguejadas pela moça sempre teriam um lugar especial na mente de Eliot. Não porque eram belas ou transmitiam o amor de um coração apaixonado, mas sim, porque, no modo mais horroroso, remetiam a ecos ancestrais e que só podem ser reproduzidos em mais terrível pesadelo.
Após estranho episódio, Eliot foi chamado de lado pelo vizinho que o convidou, qual explicou-lhe que o intuito do culto era adorar ao deus Aljar, um dos grandes antigos. Eliot,  agora tomado ainda mais pela curiosidade, continuou indagando o vizinho e perguntando sobre as características do culto de tal deus tão singular.
A conversa seguiu com o olhar de Eliot continuando a seguir a estranha e delicada moça, qual entrou num portão verde e demorou-se a sair. Voltando-se para o vizinho, Eliot não deixou de notar sua animação débil de alguém que acabara de perder a sanidade.
Para o horror de sua frágil consciência, descobriu que Aljar é um antigo deus cobra, qual usa uma máscara em sua face, além de ter o invejável título de príncipe infernal. O culto em si, mescla com a invocação de demônios menores, para por fim chegarem a invocação do tão temido e adorado Aljar.
Eliot, mesmo com certo receio e medo de sua parte, continuou na reunião. A moça do grito e das palavras incompreensíveis agora distribuía máscaras com estranha e delicada forma e desenho para todos os presentes. Eliot vestiu a sua ainda com certa relutância.
O evento a seguir foi o mais registrado nos escritos de Eliot, e relata a invocação de um dos demônios menores, o Alahu, também conhecido como Polvo Maldito.
A moça de aparentavel bom dote seguiu para o meio do novo semicírculo e ajoelhou-se. Para o horror e de Eliot e para o deleite dos outros convidados, um ser muito parecido com um tentáculo saiu da boca da moça, e começou a girar como uma hélice de helicóptero.
O tentáculo passou a respingar estranha e nojenta gosma, qual sujou a todos do cômodo. Alguns presentes, de modo frenético, levavam o líquido a boca e chegavam mais perto para serem recebidos por rajada tão gosmenta e preciosa.
Após estranhíssima cena, Eliot gritou. Um grito que percorreu por toda a casa e para os confins do estranho mundo onde vivemos. Acometido pelo horror, foi logo tomado nos braços dos vizinhos, quais tentaram explicar que tal coisas nao passava de um truque.
Depois de horas fitando aquele tentáculo enigmático que saia da boca da moça de forma horrorosa,  Eliot foi notificado de que a próxima invocação seria do temido Aljar.
Encolhido numa cadeira que conseguiu com muito esforço em meio aos presentes, Eliot escutou o berro. Um urro de animal se escutou da sala, qual os tímpanos de Eliot denunciaram como um grito ancestral vindo dos confins de mais estranho e horrendo universo.
Apenas isso e nada mais estava no meio dos escritos de Eliot. Hoje, uma grande lenda em Belo Monte corre acerca de culto tão singular. É de certo que, após cena tão horrosa, Eliot saiu correndo dali. Em sua casa, anotou vários manuscritos sobre culto ao deus aljar,  o príncipe do inferno. Eliot morreu louco há poucos anos, mas sua alma com determinação histórica permanecerá em seus alunos. Que Deus o tenha, amém.

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