Conto - Olá, estranho
Vou te contar algo que me aconteceu há dois anos, mas que
parece que aconteceu ontem. Sim. Eu vou te contar o que eu senti, eu vou te
contar o que eu vi. Não espero que você queira saber o que foi, mas o fato de
eu falar isso já me ajuda bastante, e ainda mais o fato de saber que com
certeza alguém parará para me ouvir durante alguns minutos e irá ser testemunha
do que eu vou contar aqui. Espero que você fique bem, eu realmente espero que
minha história não te cause nenhum mal. Sim! Oh, meu Deus. Sim!
Por
favor, preste atenção.
Eu trabalhava à noite em um restaurante. Mais
precisamente como garçom. Naquele dia a minha bicicleta havia quebrado e tive
que ir e voltar do trabalho a pé. Maldita bicicleta, eu sempre a odiei. Ela era
a prova de que eu não evoluíra em nada na vida, de que eu sempre vinha estando
na mesma miséria e parecia nunca sair dela. Enquanto todos tinham um carro ou
uma moto, dos mais baratos que fossem, eu tinha apenas aquilo, aquela armação
de ferro unida em um guidão e duas rodas que sempre dava sinal de
enferrujamento me fazendo ficar minutos com a palha de aço o raspando ante que
se espalhasse. Aquela coisa asquerosa que me fazia sentir um merda, um ninguém.
Mas naquele dia ela quebrou, e, céus, aquele foi o dia
que eu mais queria estar com ela. Como sempre acontecia, sai do trabalho às dez
da noite. Havia sido um dia como todos os outros dias anteriores. O restaurante
era de um peso médio, logo os clientes eram de classe média, ao menos uma
maioria. Todas às vezes que eu saía e via aqueles carros, eu me encolhia contra
a minha bicicleta, a fim de escondê-la para não passar tanta vergonha.
Felizmente ninguém prestava atenção em mim.
Fui descendo a rua do restaurante, amaldiçoando a minha
vidinha inútil. 22 anos de vida e as únicas coisas alcançadas foram terminar o
ensino médio e um emprego como garçom em um restaurante. À medida que eu andava
e xingava o fato de ter que ir a pé para casa, a lua se desenrolava de detrás
das nuvens cinzas que estavam no céu. Algumas poucas estrelas também conseguiam
se desembaraçar daquele emaranhado de vapor d’água e poeira.
A luz que a lua fez ao se mostrar foi pálida e, eu juro,
que foi gélida. Algo me cobriu e fez minha cabeça virar involuntariamente para
trás. As únicas coisas que vi foram os carros de frente ao restaurante, já a
muitos metros de onde eu estava. Aquilo me fez ficar com ainda mais raiva. A
sensação de frio foi embora, assim como a presença da lua.
Continuei caminhando e virei à esquerda na esquina que eu
sempre virava. Como sempre acontecia, não havia ninguém na rua. Uma grande
parte dos imóveis ali eram lojas, mas também havia algumas casas. Andando pela
rua eu sempre notava uma sensação de alguma coisa me acompanhando, e cada vez
chegava mais perto. Olhei para trás mais uma vez para ver nada além da rua mal
iluminada. A lua estava lá, mas de vez em quando algumas nuvens a cobria,
nessas horas a rua ficava ainda mais escura.
Pus minhas mãos embaixo do meu sovaco tentando fazer com
que ficassem um pouco mais quentes. O vento começava a ficar estranho vindo de
todas as direções possíveis. A sensação de que havia alguém me seguindo me
empurrava para a frente enquanto meus passos acompanhavam uma transparente
sombra que ainda saia do meu corpo quando a lua sai de trás das nuvens. Quanto
mais eu seguia a sombra mais os meus pés ficavam mais rápidos. Tentei olhar
para trás a fim de ver se alguém estava lá. Apenas vi o nada.
Depois vi apenas minha cara ficando perto do chão.
Tropecei nos meus pés e fui lançado para frente, a força
da inércia me fazendo quase voar por frações de segundos. Então, veio o chão.
Minhas mãos conseguiram se sobrepor diante do meu rosto, assim, elas foram
esfoladas pelo calçamento. Meu joelho também foi, devido à queda.
- Oh, merda – grunhi, enquanto me levantava com as mãos
ardendo.
Minha calça se rasgou. Porém, não me importei tanto, já
que calça social preta era o que eu mais tinha. Depois que meu pai morreu,
fiquei com suas calças sociais. Felizmente, ou não, todas couberam
perfeitamente em mim.
Olhei para trás para observar se alguém havia visto a
queda que levei, mas não havia ninguém. Fiquei muito grato por estar sozinho.
Continuei a caminhar, agora mancando, e virei à direita na outra esquina que se
seguia. Essa igual a outra rua, deserta. Quanto mais eu andava, mais meus
joelhos doíam. Entretanto, não parei, o melhor que eu poderia fazer era chegar
logo em casa.
Desci a rua tomado pela pressa e a sensação pegajosa de
ainda estar sendo seguido. Às vezes eu olhava para trás apenas para ver a rua
deserta. Não passava nenhum carro ou moto. Não havia uma alma viva se quer.
Apenas as nuvens se morrendo cinzas e devagar no céu, enquanto a lua – parada –
ficava olhando de lá de cima, quieta e calma, igual a um gato se preparando
para pular em um pássaro.
Então eu vi uma silhueta de mulher na esquina adiante de
onde eu estava. A mulher estava parada e encostada a um poste cuja lâmpada
projetava raios de luz amarelos. A mulher não se mexia. Imóvel enquanto seu
longo vestido azul claro balançava com o vento. Sua pele era morena, nunca vou
esquecer do modo como ela me olhou quando eu passei. Seus olhos eram opacos,
como se fossem feitos de pele. Por um momento perdi o ar, mas quando pisquei vi
uma mulher com os olhos normais fumando um cigarro.
Passei pela mulher e ela pareceu não me notar. Estava
entretida demais no seu cigarro e na fumaça que lançava de sua boca. Continuei
mancando pela rua, a dor nos joelhos ficando mais incômoda. Minha testa suava e
a sensação de que estava sendo seguido era exalada de mim. Olhei para trás.
Nada.
Um passo após o outro, um barulho de passos após o outro.
Uma olhada para trás após a outra. Cada vez mais eu ia entrando mais fundo
naquele bairro, naquele bairro vizinho ao bairro onde eu morava. Virava uma
esquina ali, e depois outra mais a frente. Eu me sentia um rato machucado preso
em um labirinto com gatos atrás de mim. A lua sempre ficava sumindo e aparecendo,
sumindo e aparecendo, como um olho piscando devagar.
As nuvens iam ficando mais pesadas e ameaçavam jogar água
do céu para a terra. Foi aí que vi um menino na rua. Ele estava sem camisa e
descalço, seu calção jeans estava rasgado. Ele estava acocorado de costas para
mim olhando para o chão. Quanto mais eu me aproximava dele, mais meus
machucados nos joelhos ficavam doloridos.
Olhei para os lados para ver se havia algum adulto por
perto, mas tudo estava silencioso e vazio, parado e quieto. Mais passos eu
dava, mais o menino parecia diminuir. Fui para o outro lado da rua, para tomar
uma certa precaução. Três segundos depois que passei por ele eu olhei para
trás. O menino estava sorrindo para o chão, então lentamente ele me ergueu o
rosto. Um sorriso de dentes brancos de tubarão brilhavam para mim. Seus olhos
eram brancos do mesmo jeito. Suas mãos não eram como mãos normais, pois os dedos
desciam direto dos braços, já que não havia pulsos.
Arfei e quase caí para trás. Minhas pernas ficaram bambas
e eu tossi por causa de um engasgo. O menino ficou em pé, do mesmo modo que um
bêbado fica. Se balançando para os lados. Começou a vir na minha direção. Eu
tentei correr, mas senti meu coração falhar. Senti um toque frio no meu
pescoço, então não havia mais nada na minha frente.
Não quis saber. Comecei a correr desesperadamente. A lua
me acompanhava, piscando para mim de vez em quando. Gotículas de água começavam
a vir em direção ao meu corpo. Meu coração palpitava e o meu cérebro rodava
dentro da minha cabeça. Meus ferimentos doíam, mas a vontade de chegar em casa
gritava no meu ouvido.
A chuva já caía com um pouco mais de força, e, ajudada
pelo vento, fazia uma cortina branca de água pela rua. O calçamento brilhava à
luz da lua. O vento jogava água no meu rosto e me fazia sentir frio, o que
fazia doer ainda mais os meus joelhos e mãos. A sensação de perseguição nunca
cessara, eu sempre olhava para trás a afim de encontrar algum perseguidor, mas
só via a lua.
Aquele branco redondo por entre as nuvens. Aquele farol
luminoso iluminando o caminho a minha frente. A lua me rodeava e me dava força
para correr, iluminava o meu caminho. Corri, corri e corri. Então cheguei no
cruzamento que chegava a minha casa. Quatro ruas se cruzavam e eu precisava
tomar a da direita e depois virar à esquerda para então chegar à rua onde eu
morava.
Passei por ele, ainda correndo.
Cheguei em casa desesperado. Todo o meu corpo doía. Fui
para o banheiro tomar banho de água quente. Fiquei uma hora sentado no chão
enquanto a água caía sobre mim. Eu devo está ficando louco, eu dizia para mim
mesmo. Isso não pode ser real.
Fui dormir de madrugada pensando nos olhos da mulher e
nos dentes e mãos do menino. Fiquei deitado no meu quarto, olhando para o teto
e com o corpo doído tremendo de frio. Todo o ar parecia parado, e o único som
vinha do lado de fora. O som da chuva no calçamento e no telhado. Dessa vez ela
estava mais forte. Caía com raiva e violência.
O vento então soprou dentro de casa, ao que achei
estranho, visto que não tinha nenhuma entrada para o vento passar. Me levantei
da cama e caminhei, devagar, até a sala. A porta estava aberta, a chuva molhava
a entrada da casa. Um copo caiu na cozinha, me virei por reflexo. O que vi foi
um homem maior do que eu parado atrás de mim. Ela não tinha cara, e era vestido
por um pano bege fofo. Então minha visão escureceu. A única coisa que vi foram
os seus pés. Eram amarelos. Meu nariz se torceu ao sentir o fedor, e foi a
última coisa que senti aquela noite.
O homem sentado a minha frente me olha com tédio.
- Depois eu fui para o hospital e então parei aqui – digo
para ele.
O homem passa a mão no rosto.
- Pai – ele diz. Ele acha que sou seu pai. – Você sempre
conta isso. Mas eu já lhe disse que a sua mente está inventando isso.
- Eu não sou mentiroso! – grito. – Me respeite.
- O senhor já tem 80 anos – ele fala. – Como que há dois
anos teria 22?
Dou uma fungada.
- Acredite se quiser – respondo.
O homem balança a cabeça negativamente.
Eu o conheci hoje. Quando acordei estava aqui, mas antes
eu estava em outro lugar, e antes disso eu estava em outro, e em outro, e em
outro...
Mas a história que contei a ele foi onde tudo
começou.
- Devo ir – ele diz, olhando para o relógio. – Amanhã eu
venho.
Dou de ombros.
O homem, bem vestido, levanta e sai andando. Dando
passadas rumo a algum lugar desconhecido. Olho ao redor. Há um monte de pessoas
de branco sentadas ou jogando cartas, ou falando sozinhas. Algumas assistem
televisão com a baba escorrendo da boca aberta. Os enfermeiros ficam parados
como policiais, e alguns outros passam de vez em quando levando comprimidos ou
roupas.
As horas se passam e chega o momento de irmos dormir.
Todos os pacientes desse lugar têm que dormir cedo. Todos em seus próprios
quartos, trancados. Porém, isso não o prende do lado de fora. Ele entra de todo
jeito. Deito na minha cama de cobertores brancos e fico olhando para a porta –
também branca. Uma hora ela vai abrir.
Não
demora muito. Depois que tudo se silencia e todos parecem dormir sinto passadas
se aproximarem pelo corredor. O cheiro ruim enche o ar. A tensão paira no ar do
mesmo modo que poeira depois que um caminhão passa por uma estrada de barro.
Todo o ambiente parece se esticar.
Sento na cama,
respirando pesadamente. É sempre assim. Os segundos demoram a passar, mas logo
ele está na minha frente. Caio no chão devido à tontura. Vejo seu pé amarelo
com unhas encardidas a milímetros do meu rosto. O cheiro sobe pelo meu nariz a dentro.
Antes de eu desmaiar fico pensando onde que irei acordar, e o que serei quando
acordar. Homem, mulher, velho, velha, menino, menina ou algum animal?
Joseph Gabriel
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