Conto - Inocência
Foi em uma tarde quente de dezembro que a tristeza de Luna começou. Sentada em uma pedra no meio da parte do campo esquecida pelo avô cansado, a garota pensava em todos os detalhes do acontecimento mais marcante de sua curta vida. Foi marcante, doloroso, horrível. Pensar nisso dói, dói e muito. Mas ela precisa disso. Precisa pensar nisso assim como precisa respirar para continuar viva, assim como o girassol precisa do gigante de hélio que paira minutos luz longe de nós para guiá-lo, assim ela precisa pensar.
Foi em janeiro do ano passado. Sob o sol ardente, perto das flores qual considerava suas amigas mudas, e muito mais perto daquele que se dizia seu guardador eterno. Nenhum deles pôde proteje-la, nenhum deles... Como espectadores em frente a um espetáculo de tirar o fôlego, as plantas rasteiras do campo observavam atentas o show de horror e choque se fazia, fazendo leves movimentos apenas quando a brisa de verão batia em seu ser verde e longo. O capim não fala, assim como as flores. Como se nunca estivessem ali, nada puderam testemunhar. Além do barulho conhecido do vento soprando as frondosas árvores por perto, o único som relevante ali eram os gritos. Gritos esquecidos, pedidos de socorro ecoando no campo e no infinito, um pedido esquecido que talvez nunca foi escutado.
Passaram-se dias, meses, anos, mas o sentimento que aflorava era sempre o mesmo: o medo. Medo que a dominava dos pés à cabeça, medo que amarrava sua alma e a prendia em cordas fortes e decoradas com espinhos, privando seu pequeno e jovem corpo de qualquer movimento. O medo de que tudo voltasse, o calor sufocante daquele corpo grande sob ela, a dor... A horrível dor...
Luna ja não tinha mais sua pureza, muito menos sua inocência. Sentia como se elas tivessem rasgadas violentamente em mil pedaços, maltratadas como um homem mal humorado maltrata um cão de rua qualquer pela lenta e dolorosa morte por envenenamento, quebradas como um minerador quebra a rocha. Depois de tanto sofrimento, enfim morreram. Sumiram como some a chama de uma vela que de súbito se apaga. Luna as buscou, tentou com todas as suas forças, mas já não podia mais. Estava cansada.
Tudo foi em vão. Cada sorriso nervoso em uma festa de aniversário qualquer, cada tentativa de esquecer o inesquecível, cada noite em claro ocupando a mente com o som alto de seu mp3 no quarto cheio de roupas arrumadas por sua mãe. Tudo em vão. Tudo.
Luna cansou. Cansou de lutar. Por um momento, sentiu-se morta, sem sentimentos. De volta ao campo onde tudo aconteceu, só sentia tristeza. Dentro de si, um fiapo de esperança lutava para sair e envolve-la com a tranquilidade. Já passou e não volta mais. É doloroso, mas para ela resta aceitar. Ninguém vive de passado. Uma vida assim é sem expectativas, e uma pessoa sem expectativas é uma pessoa morta. Luna queria viver, e como queria.
Sob o sol de dezembro, luna entristeceu-se. Estava cansada de lutar por algo que já passou, e isso foi em vão também, tudo em vão. Levantou-se da pedra e caminhou olhando o campo. Parecia infinito com suas montanha e vales, era lindo. Por um momento Luna sorriu. Olhando para a frente, tirou o peso das costas. Iria viver, so havia o futuro a planejar, e nada mais.
Andando pela trilha até a velha casa onde o avô a esperava, Luna pensou no futuro. Iria viver, viver como vive a grama após a chuva, viver como viveu adão após o sopro de vida. Viver. Com a mente mais leve, tomou o futuro como seu companheiro.
Andando até a casa e envolvida pela brisa de verão, Luna sorriu. De seu sorriso, saiu a esperança envolvendo-a com seu abraço carinhoso. Luna vive. Agora e para todo o sempre.
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