Conto - Encontros
O plástico do pacote de
biscoito faz um chiado grosso enquanto eu o amasso e o aperto com uma certa
quantidade de força. O imagino sendo a cabeça de alguém, e isso me faz apertar
com mais força. Não vejo nenhuma lata de lixo então jogo o plástico dentro do
bolso da minha calça. Caminho pela rua acinzentada e esbarro nas pessoas que
acham que eu vou sair dos seus caminhos, e eu também acho que elas vão sair do
meu caminho. Ninguém sai, então esbarramos.
Imagino se devo ir para
casa e dormir um pouco, mas sou atingido por algo e caio violentamente no chão
de cimento da calçada. Por sorte bato somente a bunda no chão, e o mesmo
acontece com a mulher que esbarrou comigo. Ficamos parados nos olhando com um
ar de surpresa com vergonha e um pouco de raiva.
- Desculpa – eu falo e
me levanto para ir até ela e ajudá-la a levantar.
- Desculpa também. Eu
estava distraída – a voz dela é como um pano de seda se rasgando.
Assim que nos
levantamos a mulher bate as mãos na calça jeans preta e me olha meio emburrada.
- Desculpa mais uma vez
– digo.
- Não, não precisa –
ela suspira. – Meu dia não está muito bem. Acho que o meu carma está me
perseguindo.
- Então você anda
fazendo coisas más, hãn?
Ela me olha surpresa.
Mas logo ri.
- Talvez – diz. Olha para uma um relógio prata que está no seu pulso. – Meu
Deus, preciso ir.
Ela dá um passo, mas eu
a seguro pelo braço.
A mulher não faz
nenhuma resistência.
- Então que tal
fazermos algo bom – digo. – Como ir tomar um café?
Ela me olha, olha para
frente, olha um pouco para cima, e depois novamente para mim.
- Pode ser.
Vamos a uma lanchonete
na esquina do outro lado da rua. O movimento no seu interior está como em
qualquer dia durante a semana. Algumas pessoas sentadas à mesa, enquanto
algumas tomam café no balcão. Vamos para uma mesa que fica próxima à janela
onde se pode ver o movimento no lado de fora. O dia ensolarado e o céu azul faz
tudo parecer mais alegre e brilhante, mesmo com os barulhos e xingamentos que
os motoristas fazem no engarrafamento que se forma.
- Qual o seu nome
mesmo? – a mulher pergunta, do mesmo modo que alguém questiona algo que não
entendeu.
- Que tal não falarmos
os nossos nomes?
A mulher me olha
desconfiada.
- Já estou ficando
assustada – brinca.
Eu sorrio.
- Sério. Tipo, nós
conversamos, se não gostarmos da conversa ou algo assim, nós vamos embora e
pronto. Nunca mais sabemos nada um do outro – sorrio mais. – Nem o nome.
Ela me olha e fica
balançando a cabeça devagar.
- Está certo.
Quando o café chega, a
conversa começa sobre as coisas do que cada um de nós gosta e depois já estamos
na terceira xícara de café falando sobre a mata atlântica.
Então depois do que
parece ser uma hora, ela olha o relógio prata no braço direito e diz:
- Hora de ir – e põe
uma mão em cima da minha. – Sou Isabella.
- Sou Thiago – digo.
Abraçamo-nos na saída e
ela me dá o seu número.
- Vê se me liga – diz,
e pisca um olho para mim.
- Com certeza –
respondo.
No caminho para casa
começo a assoviar e lembro o que eu tinha ido fazer na rua. Corro para o
mercadinho mais próximo e compro uma blusa rosa de dez reais, um absorvente e
alguns salgados para comer.
Deve servir por
enquanto.
O bairro onde moro fica
perto da parte da mata, um pouco afastado da zona urbana, logo demoro meia hora
para chegar lá, mesmo andando muito rápido. Quando chego em casa minha testa
está toda molhada, assim como meu pescoço e minhas axilas. Abro a velha porta
que um dia foi vermelha, mas que agora está parecendo um rosa claro, e olho ao
redor para ver se há alguém por perto. Apenas árvores.
Vou até a cozinha e
abro a geladeira para pegar um copo de suco de laranja para tirar o gosto de
café da boca. Odeio café.
Olho para a porta que vai
para o porão que fiz. Demorou quase um ano, mas consegui deixar do jeito que eu
queria. Paredes acolchoadas, ar-condicionado e outras coisinhas. Pego a chave
no bolso e abro a porta. Ela é um pouco pesada mesmo com o acolchoamento sendo
de espuma. Desço a escada em espiral com a sacola do supermercado em mãos.
Ela está do outro lado
do porão, perto da estante com alguns livros. Jogo a sacola em cima da cama
box.
- Está aí – ela apenas
me olha com os olhos assustados do mesmo jeito de todas às vezes que desço
aqui. – Não fique tão assustada.
Seus olhos redondos se estreitam e
depois ficam redondos de novo.
- SOCORRO! – ela grita
com todas as suas forças, mas logo cai no chão.
- Ninguém vai ouvir –
repito pela milésima vez. – Não se preocupe, você logo terá companhia.
Subo a escada e fecho a
porta.
Vou até o meu celular
que fica na primeira gaveta do meu guarda-roupa e disco o número que Isabella
me deu.
Ela atende no segundo
toque.
- Olá – digo. – Já
estou com saudades.
- Eu também – ela
responde com uma risadinha.
- Quer sair amanhã à
noite? – pergunto.
Ela demora um pouco a
falar. Minha mão treme.
- Eu adoraria – diz por
fim.
Apenas
sorrio.
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