A Ponte
Eram mais ou menos cinco horas da tarde quando avistei minha vizinha debruçada sobre a velha ponte. Eu estava quase deitado na grama alta, observando o pôr do sol num domingo onde se pode deitar em qualquer lugar sem ser atormentado por cidadãos atarefados. Antes do pássaro, eu não a tinha percebido. Depois de tomar mais um gole do suco em caixinha que havia trazido para o passeio, um pássaro havia literalmente surgido do nada. Por trás de uma pedra que se encontra perto do velho teatro, ele voou até a ponte e lá pousou, perto da senhora.
De começo, pensei que fosse alguém qualquer que avistara algo de interessante no córrego sujo lá embaixo. Mas depois que percebi a roupa demasiada florida e o coque preso no alto da cabeça, a reconheci de imediato. Era uma senhora de mais ou menos setenta anos que vivia próxima à minha casa. Para ser sincero, embora a visse e cumprimentasse todos os dias, nunca prestei muita atenção nela. São como aquelas coisas que existem, mas não faria diferença para você se o contrário fosse verdade.
Debaixo de ponte era escuro demais para ver alguma coisa. Aliás, o mundo todo ao meu redor já estava escurecendo. Deitado ali naquele terreno malcuidado, eu observava seus atentos olhinhos de idosa percorrerem algum caminho desconhecido lá no córrego. Se eu tinha curiosidade de saber o que tanto lhe chamava a atenção? Sim, talvez um pouco. Mas apenas deixei a situação acontecer.
Veio em minha cabeça um pensamento repentino. Talvez ela estivesse pensando em cometer suicídio. Pensei nessa situação com um misto de choque e tristeza dentro de mim, “até que a pobre senhora não fazia mal a ninguém”, pensei. Mas logo levei o tapa da realidade. Aquela ponte era baixa demais para um suicídio. Ela devia mesmo estar prestando atenção em algo lá embaixo.
Fiquei alguns minutos assim, estático, pensando em mil coisas, quando avistei a coisa. Um tentáculo de mais ou menos trinta centímetros ergueu-se da água suja do córrego e parou. Nessa hora, percebi um espanto por parte da senhora. Eu entendo, eu me espantei também.
Não podia ser uma cobra. Era mesmo um tentáculo. Um tentáculo totalmente verde, que depois de alguns poucos segundos passou a girar como um helicóptero enquanto era acompanhado por meus olhos e o da velinha.
Olhei em volta. Não havia ninguém. Era domingo, dia de descanso. Apenas eu e minha vizinha apreciando a visão de um ser desconhecido. Quando mais um pássaro voou o tentáculo se ergueu mais de um metro na água. Era grande e grosso. Um monstro literalmente. Fiquei totalmente estático. Não conseguia pensar em nada. Era uma visão totalmente incomum.
Observei o sol se pôr e a escuridão aos poucos ir tomando conta do céu. Na ponte, o monstro ficava de cara com a senhora. Pude ver, com clareza, o horror nos seus olhos. Horas depois, no meu banheiro, enquanto vomitava, percebi que eu também estava com o mesmo olhar.
Não sabia o que fazer. Seria um sonho? Se fosse, seria um pesadelo. Um horror indescritível tomou conta de mim. Gritaria? Gritaria para ela sair dali e correr? Não fiz nada disso, apenas observei enquanto o gigante monstro a envolvia com seu tentáculo. Nesse momento, sua face tornou-se inesquecível. O pânico em seus olhos, a boca escancarada com um grito engasgado dentro. Em um piscar do olho, foi puxada para dentro do córrego. Um splash! Discreto foi escutado.
Fiquei paralisado. No céu, o último pássaro voava pela ponte antes da escuridão tomar conta de tudo. Por um momento, pensei que estava numa história de horror. Hoje eu sei, eu estava mesmo. Desmaiei tão rápido quanto o pássaro pousou perto do córrego onde minha vizinha anteriormente havia mergulhado.
Acordei ainda no meio da noite. Atordoado, sem saber onde eu estava. Depois, todas as lembranças vieram de uma vez. Foi como um soco no estômago. Por um momento, pude ver o tentáculo. Ele se erguia sobre a água suja, fazendo sua dança macabra, já saciado com a carne de uma senhora. Por alguns minutos , só pude correr.
Em casa, corri para o banheiro. A imagem daquele monstro dominava minha mente. Vomitei tudo o que comi no dia. Quando me deitei na cama, vi sua imagem na janela. Ele vai me buscar, eu sinto isso. Ele vai me buscar porque eu estava lá. Eu sou uma testemunha do seu crime. O crime de um monstro.
Sentado na minha mesa, com as imagem do monstro em minha cabeça, registro todas essas palavras. Se eu não passar dessa noite, você saberá. Todos saberão. Oh Deus! Tenha piedade de minha mente!
Brenno Santos
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