A manhã seguinte-capitulo: o refugio
Alguns dias depois , numa manhã de segunda-feira, desci para tomar café com minha família, começamos a conversar sobre minha vida na clínica e como os pacientes eram , quando surgiu o tema "amigos".
- marcos, por que não procura seus antigos amigos?- sugeriu minha irmã.
Meus amigos eram basicamente jordi e carol. Conheci eles ainda no ensino medio. Ficavamos o tempo todo juntos , mas depois dos meus ataques suicidas eles se afastaram.
- não sei mary- disse eu olhando para o cereal no prato.- acho que eles não são mais meus amigos, você sabe...
-besteira! Aposto que eles estão sentindo sua falta .- disse ela se levantando.- preciso ir trabalhar.
Então ela saiu . Me deixando com um grande dilema. Eu estava mesmo considerando reencontrar eles, mas eu sabia no que ia dar.
Acabei o café e subi pro meu quarto, coloquei um disco da banda the cure e deitei.
Meus pensamentos voavam enquanto tocava " boys don't cry".lembrei dos momentos bons com os meus velhos melhores amigos.
À tarde me troquei e decidi procurar por jordi e carol.eles moravam à umas 2 quadras da minha casa, eram irmãos. Durante o percurso notei olhares de pessoas conhecidas, olhares de julgamento. Mas eu já contava com isso. Chegando na casa dos meus amigos , bati na porta e demorou pra atenderem. Quem atendeu foi jordi.
-você? - perguntou jordi meio perplexo.
- é, bom te ver tambem cara.
- o que faz aqui? Não era pra estar numa clinica para loucos ou algo assim?
- é, mas acho que dois anos já é castigo demais- disse eu, irônico.
Foi Quando vi carol descer as escadas. Quando me viu , parecia não acreditar. Ela estava linda como nunca esteve.
- marc?- disse ela sem tirar o olho de mim.
-é maninha, ele saiu do manicomio.- disse jordi com deboche.
Algo ali não encaixava, eu esperava uma relutância e não desprezo e zombaria.
- cara a gente era amigos , por que ta agindo assim comigo?
- você é um louco cara! Se nos veem andando com você, iremos passar por loucos tambem.
-carol...?- olhei pra ela com suplica, mas ela não disse nada.- ótimo então...
Dei as costas e saí, Sem olhar para trás. Pelo jeito , devo riscar meus velhos amigos da minha lista de "pessoas que não me julgam". Fui em direção ao parque. Em tempos difíceis eu ficava calmo ao ver as folhas balançando , o barulho do lago, as cigarras cantando ao pôr do sol . Eu realmente agora vejo que ainda consigo me refugiar aqui . Fecho os olhos e penso que não devo me decepcionar, na verdade eu já esperava por tudo isso, acho que foi o modo de acontecer que me assustou.
-olha o que temos por aqui!!
Eu reconhecia essa voz , olhei para trás e confirmei . Infelizmente Era rodrigo e seus "urubus" . Esses caras sempre me atormentavam e me batiam no colégio .
- o que foi dessa vez cara? - disse eu levantando e ficando de frente pra eles.
- se acalma psicopatinha. Só viemos dar um oi.- disse rodrigo dando um sorrisinho pros seus dois amigos .
- beleza ja deram o "oi" , agora podem ir.
-que eu saiba esse lugar é público cara...você não está mais no seu manicomio - disse ele zombando e rindo com seus urubus- é realmente uma pena eles não deixarem você se dar um fim lá, não é mesmo?!
Todos eles começaram a rir, uma raiva subita me tomou, eles não sabiam como foi passar dois anos numa merda de lugar sendo dopado . Logo tudo isso subiu pra minha cabeça , e sem saber muito o que estava fazendo , corri e acertei um soco na cara de rodrigo, acho que nem ele esperava, foi um soco certeiro que o fez cair .
- idiota!- disse ele com a mão no nariz sangrando, se levantando .- você não devia ter feito isso . Pessoal segurem ele!
Então nesse momento fiz a coisa mais corajosa que conseguia pensar . Corri que nem louco. Era realmente difícil correr mais rapido que três caras juntos, e desviar de raízes e galhos por toda a parte. Eu sempre achei ridículo aquele clichê dos filmes de terror, onde sempre que a gostosa esta fugindo na floresta, tropeça no galho e se ferra. Nesse caso não tinha uma gostosa e sim só eu, e foi exatamente o que aconteceu. Tropecei numa raiz no chão e fui alcançado . os dois urubus logo me levantaram e me seguraram pelos braços.
- você é engraçado...-disse rodrigo se aproximando com um sorriso assustador.- por um momento achei que você pensou que poderia me dar um soco e sair correndo. que Você é louco, eu já sabia , agora burro, isso é novo.
Então ele me deu um soco no nariz , sem chance de defesa, só consegui sentir o sangue descendo . Mas continuei calado, eu já sabia muito bem o que iria acontecer.
- vou ter que fazer isso , pra te colocar no seu lugar. Quem sabe,com sorte, você até se suicide depois.
Então ele me socou na barriga e no rosto novamente , repetidamente. Nesse momento tentava não sentir nada , conseguia só ouvir os barulhos dos golpes . Fui jogado ao chão e chutado pelos três , por toda a parte. Nesse momento me concentrei em isabelle e nada mais senti, tudo escureceu.
Acordei deitado , no chão, as cigarras cantavam, era fim de tarde. Meu corpo parecia ter sido remoido . Eu estava sujo, humilhado, tinha que ir pra casa, levantei em direção á saída do parque.
Na rua , agora minhas chances de passar despercebido tinha ido pelos ares , já que pra todos eu era um louco caracterizado.
Cheguei em casa e lógo tratei de não falar com ninguém.
- filho!! o que aconteceu? Onde estava?- perguntou minha mãe assustada, ao me ver entrar pela porta.
Subí pro quarto sem responder e tranquei a porta.
Deitei na cama , destruido , fisicamente e mentalmente. Não tinha nem uma semana que eu voltara pra casa e já queria voltar pra clínica .
O mundo estava realmente mudado em tão pouco tempo. Fechei os olhos e só o que saiu de mim foram lágrimas . Adormeci então, sentindo pena do mundo .
Acordo com batidas na porta do meu quarto, meio atordoado me levanto. Entre abro a porta, era a minha irmã.
-chegou isso pra você- disse ela me entregando uma correspondência.
Peguei o envelope e tranquei a porta. Me sentei na cama e esqueci tudo de ruim , toda a dor no corpo. Era uma carta de isabelle , eu dois dias antes de sair da clínica eu mandei uma carta contendo o endereço daqui de casa. Abri cuidadosamente , tirei a carta de dentro , me deitei e li.
"Querido mark
Essa hora você já deve estar de volta á sua casa e curtindo sua família e liberdade.
Não sabe como estou feliz que esteja feliz e que agora poderá cumprir sua promessa de vir me ver.
As coisas aqui estão indo bem . Vai fazer 2 anos que não tenho alucinações e tenho fé que logo iremos passear no parque de diversões que você disse que me levaria.
Essa será uma carta breve, pois logo falarei tudo pessoalmente.
Não esqueça de me responder.
Fique bem, com todo o amor do mundo:
Isabelle."
Ao acabar li a carta cinco vezes mais . Adorava ler as cartas dela, ela passava tanto sentimento em simples palavras de tinta em papel.
A
o acabar , guardei junto com as outras cartas dela e tomei um banho e vesti roupas limpas.
Depois do jantar eu respondi a carta de isabelle , avisando que iria visitá-la logo . Contei sobre tudo que aconteceu desde que voltei pra casa, até mesmo o episódio do parque.
Coloquei um disco do nirvana, aquela banda traduzia minha mente caótica.
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