A Manhã Seguinte: CAPITULO 1 - A Saida
É impressionante como o tempo nos muda. Lembro como se fosse ontem , quando um tanque de concreto caiu por cima de mim, e da choradeira no primeiro dia de aula. Mas isso foi a uns 15 anos atrás .
Hoje não tenho medo de largar a mão de minha mãe no mercado, até por que á muito tempo não as seguro . Não existe mais o medo do escuro, pois é tudo o que sobrou pra mim. Meus medos subiram a um patamar , eu diria que , psicótico.
Tem um certo momento na sua vida , para alguns, que você ganha dádiva da dúvida, e com isso , muitas vezes vem a descrença e a dura realidade que somos só carne vagando num planeta que nos matará antes de conseguir-mos fazê-lo.
Hoje com 23 anos , tenho um só amigo. Ele mora no primeiro quarto da ala sul, o carlos. Antes que se perguntem se me trato de um presidiario, quero logo deixar claro que, técnicamente não.
Sou paciente da clínica de reabilitação josé gonsalves. Fui pego tentando suicidio, mas todas as 6 vezes alguém entrava no quarto e fazia eu cuspir as pílulas , chego a pensar que eu era vigiado , por que é realmente estranho. Logo desistiram de tentar me convencer que eu não podia fazer mais isso, e me forçaram a ficar aqui .
Já são dois anos nesse lugar , e não imagino como será minha volta a sociedade. Como irão me olhar, se irão me entender. Esse último não tenho tanta fé, pois nem eu mesmo me entendo as vezes.
Daqui uma semana recebo alta, e todos meus pensamentos irão enfim ser concretizados, não adianta eu pensar muito nisso.
Talvez eu até sinta falta das doses diárias de EUDOK.
Daqui uma semana recebo alta, e todos meus pensamentos irão enfim ser concretizados, não adianta eu pensar muito nisso.
Talvez eu até sinta falta das doses diárias de EUDOK.
Estou esperando a próxima carta de isabelle . Ela é uma garota que eu conheci por meio de um sistema de correspondências que a clínica criou, acho que para os pacientes não se sentirem tão sozinhos.
Ler as cartas dela é uma das coisas que me mantem lúcido nesse lugar. Ela uma vez, anexou uma foto dela a uma carta que me mandou, eram simplismente os olhos mais lindos e grandes que eu já tinha visto , E seus cabelos ruivos cacheados como fogo.
Ela estava se recuperando de uma esquizofrenia, e não iria sair tão cedo quanto eu.
Ela estava se recuperando de uma esquizofrenia, e não iria sair tão cedo quanto eu.
Já esta quase na hora de ir na sala do doutor valdez , pra uma última consulta psicológica. Isso vai me dar a certeza da minha saida ou não desse lugar.
Me levanto da cama, saio pelo corredor, que me leva ao espaço de "lazer " da clínica. Só há uns cinco paciente jogando em tabuleiros ou falando sozinhos. Imagino que as pessoas lá fora pensam que estou fazendo o mesmo.
Me direciono para o consultório do doutor valdez, bato na porta:
Me direciono para o consultório do doutor valdez, bato na porta:
- entre!- diz o doutor lá de dentro.
Faço o que ele pediu, então ele me aponta a cadeira , para que eu me sente.
Observei a sala e não tinha nada de luxuoso. Só a escrivaninha , um armário de ferro,um ventilador que fazia um barulho agonizante e um bebedouro.
- senhor marcos! Como se sente na sua possível última semana com a gente?
Sim. Marcos é meu nome. Não o citei , pois não gosto muito do nome, é muito comum , já eu sou muito incomum.
- estou ancioso eu acho, mas ao mesmo tempo receioso.
Ele concordou com a cabeça e anotou na caderneta misteriosa que ele carregava consigo para todos os lados.
- então vamos começar.- disse ele.- senhor marcos, você se sente pronto para interagir com a sociedade novamente?
Essa era uma questão a se pensar, tendo em mente que, se eu respondesse negativamente eu ficaria por muito mais tempo ali.
- um dia ou outro eu teria que lidar com isso , doutor, prefiro que seja logo.
-você está ciente que será dificil a aceitação das pessoas com você ?
Estranha a pergunta, já que na minha vida toda nunca me aceitaram.
- com certeza.- disse eu sorrindo.
- o que levará daqui, como aprendizado para a sua vida lá fora?
Essa resposta eu já tinha na ponta da língua há muito tempo.
- que eu devo fazer de tudo, para não voltar mais para esse lugar.
O doutor sorriu e anotou dinovo na sua caderneta.
-você parece pronto pra voltar para casa, nenhuma irregularidade.- disse ele levantando e checando algo no armário.- será sua última semana de tratamento , ao acabar estará pronto pra ir para casa.
-otimo - disse eu tentando ver o que ele estava procurando.
Então ele pareceu achar uma espécie de pulseira metálica .
- vou lhe dar isso.- disse me entregando o objeto, que era de fato uma pulseira.- chamo isso de tótem.
Observei a pulseira , nada de diferente ou especial.
- é....pra que serve ?
- um tótem serve pra te manter na realidade. Sempre que estiver se sentindo fora do controle de si próprio, sinta ele. Vai ajudar a voltar a si.
Não via como aquilo ia me manter no controle, mas....
-hum....ok.
-bom, acabamos. Creio que não nos verêmos mais, assim espero - disse ele dando um risinho amigável.- boa sorte do lado de fora garoto.
Entao acabada a consulta, eu coloquei a pulseira , sem motivo aparente, eu não pretendia usá-la. No caminho de volta ao meu quarto, encontrei carlos, ele estava sentado no corredor sozinho.
- e ai , cara.-disse chutando sua perna de leve .
Carlos então leva um susto, pelo jeito a mente dele estava longe.
- ah é voce cara- disse meio xoxo.
- quem mais seria? sou o seu unico amigo aqui- falei rindo e sentando ao seu lado.
Carlos era sozinho, a familia dele o largou la e só os vi visitando ele uma vez . Eu via a dor nos seus olhos. eu sentiria sua falta quando fosse embora, mas eu pretendia visitá-lo.
Conversamos até tarde, então voltei pro meu quarto e não consegui dormir. Sou ancioso em excesso , e quando me dão alguma expectativa, não consigo me acalmar até cumprir.
Pensei na minha família, nos meus antigos amigos, na isabelle, e me vinham muitas dúvidas e incertezas. Pensei também em como a vida é injusta. Na verdade grande motivo das minhas tentativas de suicídio eram por causa desses pensamentos. Eu nunca acreditei em vidas além da que vivemos. Pra mim depois que morremos acaba tudo. Sem céu , nem inferno, nada. E isso me causava um medo imenso, pois eu não aceitava viver uma vida , construir uma história , para simplismente deixar de existir. Meio louco né?
Finalmente o dia chegou. Um enfermeiro veio me avisar a chegada da minha mãe , que veio pra me buscar. Com minha bagagem nas mãos me despedi de carlos e pude ter um último vislumbre do ambiente que chamei de casa por um tempo .quando cheguei lá fora, foi como se eu respirasse um ar completamente novo. Pessoas andando nas calçadas , cachorros sarnentos perambulando de um lado á outro, mendingos procurando comida no lixo e minha mãe esperando ao lado do carro.
- olá senhora tânia, olha quem esta de volta a sélva.- disse eu, em tom de sarcasmo.
Tudo o que minha mãe conseguiu foi um sorriso em seguida de um abraço, caindo em prantos .
Minha mãe é um dos motivos de eu escolher levar meu tratamento até o fim. Eu tinha que compensar ela de alguma maneira, pois, ela não merecia tudo que eu a fiz passar. Ela sempre cuidava de mim nos momentos difíceis, uma "super mãe" na verdade. Criou meus irmãos e eu, sozinha, depois que meu pai nos abandonou.
Imaginei que ela não conseguiria conter as lágrimas. Pois aquele momento tinha sido o momento mais importante da vida dela, eu creio.
Imaginei que ela não conseguiria conter as lágrimas. Pois aquele momento tinha sido o momento mais importante da vida dela, eu creio.
Já no carro , conversamos pouco. Eu não sou muito comunicativo.
- não estão planejando um jantar de gala ou algo parecido pra mim né? Eu odiaria.
- nem pensar filho, conheço você muito bem, iria expulsar todo mundo .- disse ela rindo .
Minha casa era bem modesta, nada que uma casa de familia de classe média não tenha. Na verdade , tenho uma teoria que a casa passa a natureza de quem mora nela.
Chegando em casa estavam meu irmão mais velho anderson e minha irmã mary . Meus irmãos eram indiferentes sobre minha internação e minha depressão. Tanto é que quando eles me viram , não me trataram como um louco ou um delinquente, o que foi um alivio. Fizeram um jantar pra mim e foi simples assim. Sem caras feias, sem perguntas , sem crises. Nada tinha mudado nesse tempo que estive fora. A mesma casa simples, o mesmo quarto com meus posters de bandas de Rock colados na parede. Deitei na minha cama, e adormeci, como nunca tinha adormecido nesses últimos dois anos.

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